sábado, 7 de março de 2009

A complexidade e a ecologia.: um olhar transdisciplinar para o ambiente e a educação

A luz dos teóricos da “Complexidade” busca-se contextualizar a o conceito de ecologia. Parte-se da idéia-chave, de que o ambiente é constitutivo em permanente ou permanência de todos os seres que se alimentam nele; ele coopera permanentemente com a sua organização. Esses seres e essas organizações são permatentemente eco-dependentes.
Mas por um paradoxo que é a característica da relação ecológica, é nessa dependência que se tece e se constitui a autonomia dos seres.
Tais seres não podem construir e manter sua existência, sua autonomia , sua individualidade, sua originalidade se não na relação ecológica, isto é, em e pela dependência relativa a seu ambiente, de onde a idéia alfa de todo pensamento ecologizado: a independência de um ser vivo requer sua dependência de um ser vivo requer sua dependência em relação ao seu ambiente.

Introdução


A física clássica dissolveu e desintegrou a idéia de natureza para considerar apenas as suas leis gerais e objetos manipuláveis. A biologia deixa de vê-la como a mãe protetora e sábia para concebê-la unicamente como selecionadora anônima.(Morin; s.d:56)

O conceito de ecossistema reintroduz na concepção científica a antiga idéia de natureza ainda dominante no século XVI e a partir dos séculos XVII e XVIII, em vigor apenas na poesia: - a natureza como uma entidade integradora, organizadora, regeneradora. Mas agora com uma vantagem:

Se formos capazes de conceber a complexidade eco-organizadora, poderemos estabelecer as ligações entre as duas concepções contrárias de natureza que dominaram o século XIX: por um lado, a “concepção organicista, maternal, harmoniosa de Rousseau e do romantismo; por outro lado, a concepção cruel, impiedosa, eliminadora, dum certo darwinismo, concebido em termos de luta e de seleção. A natureza viva ou eco-natureza revela-nos virtudes organizadoras ainda mais admiráveis do que haviam imaginado os românticos. A sua virtude de “espontaneidade” pemite-lhe organizar em eco-sistema de elevadíssima complexidade sem dispor de um centro organizador. A sua virtude “reorganizadora” permite-lhe tolerar apagar e utilizar, de modo extremamente flexível, riscos, perturbações e desordem. A sua virtude “integradora” permite-lhe associar, numa unidade reguladora, uma miríade de seres e de espécies extremamente diversas, bem como converter egoísmos, antagonismos e devorações numa grande solidariedade eco-organizadora. (Morin: s.d 57-58)

A morte faz parte dos fundamentos vitais da eco-organização: concorrências, antagonismos, fagias semeiam a morte e toda cadeia de vida é, ao mesmo tempo, uma cadeia de morte.(...) A grande regulação eco-organizadora é o produto do confronto das duas ubris contrárias, a ubris da morte e a ubris da vida, produção louca de sementes, germes, espermas, de que a maior parte é massacrada mesmo antes de nascer, precisamente pela ubris da morte. Assim não é unicamente nas suas desordens que a natureza é bárbara, é na regeneração e na edificação de sua harmonia.(Morin; s.d.: 58)

Para José ª Lutzemberg, ecólogo brasileiro reconhecido internacionalmente em seu artigo Conceito de ecologia para a revista Vozes de jan de 1979,ecologia: “é a ciência da sinfonia da vida, eé a ciência da sobrevivência”(64)

Boff compartilha da mesma visão que Morin e Lutzemberg sobre as peculiaridades do saber ecológico:
...a ecologia é um saber das relações, interconexões, interdependências e intercâmbios de tudo com tudo em todos os pontos e em todos os momentos. (...) Ela é um saber de saberes, entre si relacionados.
...a ecologia só se define no marco das relações que ela articula em todas as direções e com todo tipo de saber acerca da forma como todos os seres dependem uns dos outros, constituindo a teia imensa de interdependências deles. Eles formam, como tecnicamente se diz, um grande sistema homeostático, que significa um grande sistema equilibrado e auto-regulado. Ela não substitui os saberes particulares com seus paradigmas específicos, seus métodos e resultados( ...) A singularidade do saber ecológico consiste na tranversalidade. (...) quer dizer, no relacionar pelos lados (comunidade ecológica) para frente (futuro), pra trás (passado) e para dentro (complexidade) todas as experiências e todas as formas de compreensão como complementares e úteis no nosso conhecimento do universo, nossa funcionalidad dentro dele e na solidariedade cósmica que nos une a todos.

A boa e a má natureza constituem, portanto, as duas faces de uma realidade una, plural, contraditória. Os antagonismos são ao mesmo tempo, complementaridades. A desorganização é ao mesmo tempo organização. “Vida e morte alimentam-se, produzem-se mutuamente numa cadeia, no qual todo ato que alimenta a vida é um ato mortal para vida.”(Morin; s.d:59)
A ecologia fica mutilada se for apenas ciência natural: não só as sociedades humanas sempre fizeram parte dos ecossistemas, mas estes, depois dos desenvolvimentos universais da agricultura, da criação de gado, da silvicultura, da cidade, fazem agora parte das sociedades humanas, que fazem parte deles. A ecologia geral deve pois ser uma ecologia que integra a esfera antropossocial na ecosfera e ao mesmo tempo a formidável retroação dos desenvolvimentos antropossociais sobre os ecossistemas biosfera.
As sociedades arcaicas de caçadores-coletores eram móveis dispersos, com poucos indivíduos, integravam-se nos ecossistemas; já os modificavam, e por vezes até degradavam (pelo fogo), “mas inscreviam a sua organização, sem no entanto inscreverem a eco-organização na sócio-organização.” (Morin; s.d.:69)
As sociedades históricas, isto é, as sociedades que surgem na história no mesmo movimento que fazem surgir a história, são sociedades pastorícias, agrícolas e urbanas, agrupando populações aos milhares. Foram se transformando não só a sua ecologia, mas a relação de dominância/controle no seio dos ecossistemas, isto é, sob um aspecto crucial, a própria relação ecológica.
Esta transformação comporta aspectos de simbiotização entre as espécies vegetais ou animais selecionadas que, a partir daí, são protegidas, tratadas, alimentadas, pelo homem, mas desenvolve inseparavelmente o parasitismo e a subjugação do homem relativamente a essas espécies.

A subjugação no sentido biológico do termo, é o fenômeno pelo qual o subjugador impõe o seu comando e o seu controle sobre os aparelhos( reprodutores ou cerebrais) de outros seres vivos, utiliza ou inibe as suas qualidades (organizacionais, operacionais) para a realização dos seus próprios fins próprios.(Morin; s.d.: 70)

A subjugação não é uma invenção humana, Exerce-se de modo restrito nos parasitismos: as formigas praticam na sujeição de outra espécies, a domesticação dos pulgões, a cultura dos cogumelos. Mais foi numa escala totalmente diferente, com meios totalmente diferentes que as sociedades históricas fundaram a sua subjugação parasitária da natureza, “A, subjugação da natureza pelo homem transformou a natureza da subjugação. ”Morin (s.d.: 70)
A subjugação dos processos de reprodução e de desenvolvimento vegetal constitui a agricultura ( seleção das sementes e do terreno, crescimento, hibridações, estímulos do crescimento, etc.) . A subjugação. do animal constituía a criação e a domesticação,
A subjugação dos vegetais ou dos animais faz-se acompanhar por uma subjugação do território natural, florestas, lagos, rios, onde o homem estabelece o seu controle e a sua exploração.
Estes processos subjugadores afetam não só os fenômenos ecológicos, mas o princípio organizador. Mas reciprocamente, o controle do ecossistema sobre as sociedades humanas cresce à medida do controle que suporta. As variações ecológicas provocam gelo, seca, inundações que determinam desastres e fome as quais suscitam crises, guerras, invasões ...
Todavia, durante as longas eras de agricultura tradicional, as espontaneidades eco-organizadoras naturais amorteceram e integraram muitas perturbações provenientes de intervenções antropossociais.
Durante muito tempo a inovação antropossocial desenvolveu a complexidade natural: as hibridações, e crescimentos aumentaram a diversidade dos indivíduos e das espécies sem no entanto destruírem as antigas variedades: as seleções desenvolveram aptidões latentes ou embrionárias. Mas progressivamente, a extensão e a intensificação da agricultura e da criação fazem desaparecer espécies selvagens e reduzem a variedade das espécies domesticadas em proveito dos tipos de rendimento elevado.
No século XIX multiplicaram-se as “crises de biocenose” , provenientes de intervenções humanas visando um objetivo preciso, isto é, concebido isoladamente, sem consciência das interações eco-organizadoras, das quais participa o fenômeno que se pretende eliminar, sem conceber de resto as perturbações eco-organizacionais, provocadas pelo fenômeno que se pretende fazer surgir.
A destruição de uma espécie nociva ou a introdução de uma espécie estranha determinam crises de biocenose.
Tudo isso pode e deve aparecer como o “reverso” do desenvolvimento antropossocial na era industrial, que aliás permitiu não só alimentar de modo acrescido um número acrescido de seres humanos, mas também fazer progredir a complexidade antropossocial.
Mas também este reverso progride e faz progredir a descomplexificação da natureza. No século XX, a destruição da rotina pela técnica, as monoculturas em larga escala e em rotação acelerada, as seleções destruidoras da variabilidade, a racionalização em função apenas do rendimento, generalização dos adubos industriais e, enfim, a propagação dos pesticidas lesam profundamente os ciclos de regeneração, matam rios e lagos, transformam as terras de monocultura em campos de concentração para um tipo vegetal, isolado de todo contato biológico, doravante sem zumbido de um inseto, o salto de um coelho, nem o canto dum pássaro. A partir daí a biocenose está quase destruída e só resta uma espécie entre as tenazes metálicas da tecnosfera.
Doravante, uma parte da natureza depende não só da sociedade humana, mas da tecnosfera estende à vida humana e à vida natural o modelo de organização próprio das máquinas artificiais. O espírito desta tecnologia determina e é sobredeterminado pela lógica do lucro, pelo gigantismo industrial, pelo excesso de especialização.
Agora a sociedade humana encerra nas suas malhas os ecossistemas, mas não escapa aos princípios fundamentais da relação ecológica. O homem alçou-se ao topo da natureza, mas permanece no interior da natureza. Sofre a eco-determinação que toda vida sofre e a dependência ecológica acrescida é o preço da sua independência acrescida.
O homem tornou-se o subjugador global da biosfera, mas por isso mesmo subjugou-se a ele. Tornou-se hiperparasita do mundo vivo, mas por ser parasita ameaça a sua sobrevivência ameaçando desintegrar a eco-organizaçãp em que vive.
A tomada de consciência da relação ecológica conduz a uma tomada de consciência antropossociológica e sugere duas questões interligadas.
A primeira diz respeito à situação do homem na natureza, ou segundo os termos próprios de Morin, a situação da esfera antropossocial na biosfera. A segunda “concerne ao que liga a subjugação/exploração do homem pelo homem. Morin (s.d.:94) Estariam já estabelecidos os dois primeiros elementos da resposta através do desenvolvimento das páginas precedentes Quanto mais controlarmos a natureza mais ela nos controla. Subjugar a natureza ajuda-nos a intersubjugarmo-nos.”

Vimos que o desenvolvimento das nossas sociedades:

• inscreve cada vez mais a ecologia natural na esfera antropossocial;
• inscreve cada vez mais as sociedades na ecosfera e sobretudo quando essas sociedades se crêem emancipadas na natureza;
• cria eco-sistemas mistos mais ou menos selvagens ou domesticado, simultaneamente eco-organizados;
• cria eco-sistemas sociais, nomeadamente urbanos, onde a parte biológica natural está reduzida ao mínimo e onde se hipertrofia a parte artificial tecnosfera.

A verdadeira realidade, agora polarizada, entre a eco-organização natural e a sócio-organização humana é mista, vaga, multidimencional : a verdadeira realidade é a eco-(bio-sócio)-logia complexa constituída por eco organizações biológicas e sociais, onde o urbano, o rural, o selvagem se sobrepõem e interferem em interações complementares, concorrentes, antagônicas e incertas. “Já não há natureza pura e nunca houve sociedade pura .” (Morin: s.d.: 97)

A ecologia geral é portanto, a ecologia que se constitui no circuito:

Ecologia ---------sociologia
______________

O olhar ecológico consiste em distinguir (perceber) todo fenômeno autônomo ( auto organizador, auto-produtor, auto-determinado) na sua relação com o seu ambiente. Este, enquanto tal, não é um ecossistema. Ex A bactéria Escherichia coli tem como seu ambiente os nossos intestinos, que para nós são órgãos, mas para as bactérias são o “seu”ecossistema. O ambiente social de um indivíduo humano constitui, quando consideramos de modo global, uma sócio-organização onde se esbate a dimensão eco-organizadora; mas, considerado do ponto de vista do indivíduo, surge como o seu ecossistema: esse ambiente é constituído não só por um “meio”urbano, rural, técnico, etc, mas também por um conjunto de inter-retroações associativas, concorrente, antagônicas; cada uma das suas ações entra de modo aleatório nessas interações, modifica-se e é modificada por ela. (Morin; s.d.: 77)

O olhar ecológico salienta necessariamente o papel ativo do sujeito em todo processo cognitivo, pois, para o olhar ecológico (aparece), como ambiente ou ecossistema aquilo que, por outra focagem e outra escala, aparece diferente (estruturas sociais, instituições, etc).
A noção de ecologia aparece com Haeckel (1866); institui um novo campo nas ciências biológicas: o das relações entre os seres vivos e os meios onde vivem, Desenvolvendo-se no século XX, vai cada vez mais descobrir no ambiente a riqueza de um universo. Vai discernir a unidade de dupla textura proveniente da conjunção de um biótopo e de uma biocenose. As unidades ecológicas emergem: na base, o nicho; (Elton, 1927); no topo, a biosfera, que totaliza o conjunto da vida na crosta terrestre.
Correlativamente, vê-se que o meio não é constituído apenas pela ordem geofísica nem pela desordem de todos contra todos. Os modelos matemáticos de Volter e Lotka (1924) mostram que a “luta pela existência entre seres vivos produz ‘leis’. Mais ainda: a emergência da noção de ecossistema (Tansley, 1935) constitui uma tomada de consciência fundamental: As interações entre seres vivos, conjugando-se com as imposições e as possibilidades fornecidas pelo biótopo, organizam precisamente o ambiente como sistema . (Morin; s.d.: 22)

A partir daí o ambiente cessa de representar uma unidade unicamente territorial, para tornar-se uma realidade organizadora, o ecossistema, que comporta a ordem geofísica e a desordem da selva. Doravante, a ecologia funde-se na idéia de ecossistema, que integra e ultrapassa as noções de meio ambiente, de Unwelt.
Efetivamente, no seu fundamento a ecologia não é somente a ciência das determinações e influências físicas provenientes do biótopo; nem somente a ciência das interações combinatórias/organizadoras entre cada um e todos os constituintes físicos e vivos dos ecossistemas.

Portanto a ecologia necessita de um pensamento organizacionista, mas que ultrapasse os princípios de organização, mas que ultrapasse os princípios de organização estritamente físicos. Com efeito, a eco-organização é organização simultaneamente física e viva:
Física viva
______________
Sua originalidade reside no seu caráter vivo, que retroage sobre o seu caráter físico.(Morin; s.d. 22)


1.2- O conceito de Paradigma


O pensamento de um determinado tempo organiza-se segundo os paradigmas nele inscritos pela cultura.

Que quer dizer paradigma? O sentido do termo grego oscila em Platão em torno da exemplificação do modelo ou regra. Para Aristóteles, o paradigma é o argumento que baseado num exemplo, se destina a ser generalizado. (Morin; 1998: 265)

O termo foi difundido através da logística estrutural, com um sentido específico, etc

Adquiriu um sentido de vulgata bastante afastado da lingüística estrutural no vocabulário das idéias e debates científicos anglo-saxões. Designa seja o princípio, o modelo ou a regra geral, seja o conjunto das representações, crenças, idéias, que se ilustram de maneira exemplar ou ilustram casos exemplares.(Morin; 1998: 266)

Em a Estrutura das revoluções científicas Thomas Kuhn atribuiu importância decisiva à noção de paradigma, retomando, à sua maneira, a idéia de que o conhecimento científico não é pura e simples acumulação de saberes e que o modo de conceber, formular e organizar as teorias científicas era comandado e controlado por postulados e pressupostos ocultos. A originalidade constituiu em detectar, sob pressupostos ou postulados, um fundo coletivo de evidências escondidas e imperativos, que denominou paradigmas. Na primeira edição do seu livro, o paradigma é constituído pelas “descobertas científicas universalmente reconhecidas.” Kuhn (1975: 218)

Na segunda edição o paradigma adquire um sentido sociologizado e torna-se “o conjunto das crenças, dos valores reconhecidos e das técnicas comuns aos membros de um determinado grupo.” Kuhn (1975: 218)
Assim, como diz Morin (1998), Kuhn deu ao termo “paradigma” um sentido ao mesmo tempo forte e vago. Forte, pois o paradigma tem valor radical de orientação metodológica, de esquemas fundamentais de pensamento, de pressupostos ou crenças detendo assim um poder soberano sobre as teorias. Vago, pois oscila entre sentidos diversos, cobrindo in extremis , de modo difuso, a adesão coletiva dos cientistas a uma visão de mundo. As críticas sobre a insuficiência e a imprecisão da noção Kuhniana de paradigma denunciam não só uma insuficiência no pensamento do autor mas também uma dificuldade de se pensar a noção de paradigma, que se obscurece e depois se desvanece quando se tenta mergulhar no caráter primeiro, fundador. Trata-se de uma noção que não sabemos nem realmente isolar, nem conectar verdadeiramente com a lógica, com o espírito humano, com a cultura.
De resto, sob o efeito das críticas a respeito da imprecisão do termo, Kuhn depois de ter tentado localizá-lo ou baseá-lo sócio-culturalmente, parece ter se decidido a abandoná-lo
Como veremos, um grande paradigma controla não apenas as teorias e raciocínios, mas também o campo cognitivo intelectual e cultural em que nascem teorias e raciocínios. Controla, além disso, a epistemologia que controla a teoria e a prática decorrente da teoria.

Conservo a noção de paradigma, não só apesar de sua obscuridade, mas também por causa dela, pois visa a qualquer coisa de muito radical profundamente imersa no inconsciente individual e coletivo, cuja emergência muito recente e parcial no pensamento consciente ainda está envolta em brumas. Conservo-a também, não só apesar da sua ambigüidade, mas também por causa dela, pois esta nos remete a múltiplas raízes emaranhadas (lingüísticas, lógicas, ideológicas e mais ainda, cerébro-psiquícas e sócio-culturais).
Como Foucault fez com a episteme, utilizarei o termo paradigma não só para o saber científico, mas para todo o conhecimento, todo pensamento, todo sistema noológico (Morin; 1998: 167)

Morin propõe uma definição:

Um paradigma contém para todos os discursos que se realizam sob o seu domínio, os conceitos fundamentais ou as categorias mestras de inteligibilidade, ao mesmo tempo que o tipo de relações lógicas de atração/repulsão (conjunção, disjunção, implicação ou outras) entre esses conceitos e categorias. (1998: 268)

Numa cultura podem conviver e geralmente convivem diferentes paradigmas.
A relação homem/natureza pode ser um bom exemplo. Prevalecem neste caso dois paradigmas. Para um deles, a espécie humana inclui-se no mundo natural, sendo portanto legítimo falar-se de uma natureza humana. Para o outro, o humano é algo de único, de específico, situado acima e fora da natureza. O exemplo dado presta-se ainda à identificação do modo de atuação do paradigma da simplificação Este vigora nas duas posições citadas, apesar da oposição que as distingue, Ambas obedecem ao mesmo determinismo face à complexidade da questão. Na primeira, reduz-se o humano ao natural; na segunda, distingue-se, separa-se o humano do natural. A inteligibilidade moldada pelo paradigma da simplificação não considera plausível

a unidualidade (natural, cultural, cerebral e psíquica) da realidade humana e também a relação ao mesmo tempo, inconsciente e supraconsciente, subterrânea e soberano pois define a verdade de um sistema de idéias. É enfim o organizador da organização e, como tal comanda os princípios de pensamento, situando-se no mais íntimo do sistema de idéias, e das teorias, como foi apontado por Kuhn. (Morin; 1998: 270)

Morin.(1998:274) estabelece doze características comuns aos diferentes paradigmas:
1- o paradigma é ‘não falsificável’, embora as teorias dele dependentes sejam falsificáveis;
2- dispõe do princípio de autoridade axiomática;
3- dispõe de um princípio de exclusão;
4- o paradigma cega, ou seja o que exclui deixa de existir;
5- é invisível... Só aparece nas atualizações, que o exemplificam;.
6- cria evidências, auto-ocultando-se;
7- é cogerador do sentimento de realidade;
8- a invisibilidade torna-o invulnerável. Só podem afetá-lo, atingí-lo os ‘indivíduos desviantes’, existentes em qualquer sociedade, e as revoluções paradigmáticas que, embora raras, acontecem;
9-.há incompreensão e antinomia entre os paradigmas, isto é entre pensamentos, discursos, sistemas de idéias comandados por paradigmas diferentes;
10- o paradigma está recursivamente ligado aos discursos e sistemas que gera. É como a arcada que mantém unido o conjunto de peças da abóbada, enquanto é, ela própria, mantida pelo conjunto de peças que mantém. Ela sustenta, em suma, o que a sustenta;
11- um grande paradigma determina, através das teorias e ideologias, uma mentalidade, uma visão de mundo. Por isso, uma mudança no paradigma ramifica-se pelo conjunto do nosso universo. Uma revolução paradigmática transforma o nosso mundo;
12- Invisível e invunerável, um paradigma não pode ser atacado, contestado arruinado diretamente. É preciso que apareçam frestas, fissuras erosões, corrosões no edifício das concepções e teorias subentendidos.
A seguir os comentários adicionais do autor, às características de números 9 e 12.
Número 9: exemplo dado: a oposição paradigmática capitalismo/socialismo versus sua oposição paradigmática democracia/totalitarismo e vice versa.

O pacto Hitler/Stalin de1939, parece puramente circunstancial, a quem quer que se situe nos limites do primeiro paradigma, o qual estabelece uma relação consubstancial entre capitalismo e nazismo. Em contrapartida, o pacto é altamente significativo, para aqueles cujo pensamento é conformado. (Morin: 1998: 274)

Finalmente, sobre o número 12, Morin acrescenta que, num processo de transformação paradigmática, é necessário não apenas o aparecimento de frestas, erosões e corrosões no sistema teórico subentendido. É necessário que novas teses ou hipóteses desviantes, sejam propostas, verificadas e confirmadas no mesmo terreno onde se verificaram fracassos.

É preciso em suma um vaivém corrosivo/crítico entre dados, observações, experiências nos núcleos teóricos, para que possa então acontecer o desabamento do edifício minado, arrastando, na sua queda, o paradigma cuja morte poderá, como a sua vida, manter-se invisível. (Morin;1998: 275)

1.2.1-.O grande paradigma do Ocidente: a duplicação disjuntiva dos seres

A separação entre ciência e filosofia dá-se nos séculos XVIII e XIX, estabelecendo dois universos comandados por regras e princípios diversos: a filosofia e a pesquisa reflexiva, de um lado; a ciência e a pesquisa objetiva, de outro, de acordo com as prescrições do paradigma cartesiano, que determina a seguinte disjunção

Sujeito Objeto
Alma Corpo
Espírito Matéria
Qualidade Quantidade
Finalidade Causalidade
Sentimento Razão
Liberdade Determinismo
Existência Essência


Esse paradigma determina uma dupla visão de mundo, de fato uma duplicação do mesmo mundo; por um lado, um mundo de objetos submetidos a observações, experimentações, manipulações. Por outro, um mundo de sujeitos que se colocam a si próprios problemas existenciais, de comunicação, de consciência, de destino... O humanismo ocidental consagra a disjunção entre os dois universos, enquanto se instala em ambos. Assim, vê na ciência, não o aspecto que faz do homem um objeto de ciência entre outros, e ignora todo o sujeito humano, mas o aspecto que faz dela o instrumento da dominação humana sobre a natureza e tende a fazer do seu manipulador o sujeito do universo. (Morin; 1998: 279)

1.2.2- Ciência – técnica - sociedade

A ciência é, em si própria, poder de persuasão e manipulação. Esse poder, virtual nas medidas e quantificações, objetos das operações de cálculo, atualiza-se nas manipulações de objetos. A matematização procura fórmulas cuja aplicação permita obter resultados práticos. O poder da ciência realiza-se na experimentação, que comporta a extração de um objeto para fora de seu meio natural (disjunção operacional e operações manipuladoras sobre esse objeto. Enquanto o primado da matematização desenvolve os poderes de abstração, de extração, de operação e de controle, o primado do conhecimento analítico permite a divisão em pequenas unidades manipuláveis. Dividir para reinar. A fórmula é também a de Maquiavel para dominar a cidade, a de Descartes, para dominar a dificuldade intelectual, a Taylor, para reger as operações do trabalhador na empresa. O paradigma ocidental reina, dividindo. (Morin; 1998: 286)

Na Europa ocidental, constitui-se, a partir do século XVII, uma engrenagem histórica ciência/técnica Esse par tende, conforme a expressão de Heidegger, a aprisionar a natureza.
Mas esse objetivo produz hoje uma outra questão:

será a tecnociência que se apodera da sociedade ou a sociedade que se apodera da sociedade ou a sociedade que se apodera da tecnociência? (...) Nessas condições, o paradigma da ciência clássica não é mais separável do paradigma que comanda a organização das sociedades contemporâneas, Temos, portanto, de mergulhar o olhar nesse lugar profundo, obscuro enigmático onde o ideal e o social se invertem e se transmutam um no outro... Temos que perceber o polienraizamento social, econômico, cultural, noológico do grande paradigma ocidental. (Morin; s.d.: 286)

O grande paradigma está presente não apenas na sociedade (disjunção entre a organização tecnoburocrata e a vida cotidiana), na cultura (disjunção entre cultura de humanidades e cultura científica), mas também nos psiquismos e nas vidas, suscitando as passagens, por saltos quase quânticos, do mundo dos sentimentos, das paixões, da poesia, da literatura, da música, para o mundo da razão, do cálculo da técnica...
O que é paradigmático está profundamente inscrito na organização cognitiva dos espíritos/cérebros humanos, na organização noológica, nos processos lingüísticos e lógicos, na cultura, onde se determinam as visões de mundo, nos mitos e nas idéias, na atividade e nas condutas...
Toda sociedade é o produto das intercomputações e intercogitações entre indivíduos que a constituem e retroage de maneira megacomputacional sobre os indivíduos, fornecendo-lhes normas, padrões, esquemas, que se inscrevem no imprinting cultural desses indivíduos e guiam as suas computações/cogitações. Se compreendemos isso, podemos então compreender que a instância paradigmática se situe no nucleus comum e obscuro onde normas, padrões e esquemas guiam as computações e as cogitações que as atualizam. ( Morin; s.d.: 187)
É por existir um tronco comum à maneira como se organizam o conhecimento e a sociedade, que a noção de paradigma apresenta uma grande ambigüidade. Ela (essa noção) pode ser concebida num sentido idealista ou num sentido materialista. O sentido idealista faz do paradigma a idéia central que comanda, em suma, toda organização social, a qual seria como que um produto das potências organizadoras do espírito; o sentido materialista faz do paradigma a expressão ou o resultado, em termos simbólicos e ideais, das realidades sociais materiais que são as relações entre as forças produtivas.
Mas é preciso estar justamente sob influência de um grande paradigma a expressão ou resultado, em termos simbólicos e ideais, das realidades sociais materiais que são as relações entre as forças produtivas.

Mas é preciso estar justamente sob a influência de um grande paradigma para que se imponha a alternativa matéria/espírito. De fato, os dois sentidos são verdadeiros, isto é ambos são relativamente falsos. Dado que o paradigma se situa no nucleus da materialidade de toda organização, viva, individual, social, é de natureza computacional, logo imaterial mas os operadores de todas computações vivas, individuais, sociais, assim como operadores de todos os pensamentos, ideologias, mitologias, são objetos físicos, biológicos, cerebrais, ou seja, materiais. (Morin; 1998: 289)

A instância paradigmática une num nó górdio a organização primordial do cognitivo e a organização primordial do social.

1.2.3 Sobre a revolução paradigmática

Uma revolução paradigmática transforma o modo de pensar, o mundo pensado, o mundo do pensamento.
A revolução copernicana é exemplar como revolução paradigmática. O sistema geocêntrico do mundo, estabelecido milenarmente, não constituía um paradigma de centralidade/hierarquia que privilegia o homem e seu habitat, colocando-os no centro do mundo; este paradigma foi atingido. A revolução copernicana não afetou nenhum dos componentes planetários do sistema anterior; realizou somente uma permutação hierárquica entre a Terra e o Sol e pôs a Terra em movimento o que bastou para mudar simultaneamente o mundo e o lugar do homem no mundo. As verdades antropocêntricas foram abaladas. As verdades religiosas, atingidas. A autoridade e a infalibilidade do poder espiritual, alteradas. Ao mesmo tempo, a revolução paradigmática abria uma problematização generalizada iniciada pelo Renascimento, que iria atua de modo constante sobre a cultura européia.
Para operar a simples permutação Terra-Sol, um enorme trabalho teve de ser realizado ao nível dos fenômenos e da teoria, até que o paradigma soberano pudesse enfim ser atingido. As observações desviantes e aberrantes em relação à teoria geocêntrica multiplicaram-se antes de ter conseguido corrompê-la. Para que pudesse emergir a nova concepção, foi necessário acumular novos indícios, novos cálculos e a elaboração de um novo esquema explicativo. Houve enormes dificuldades e resistências, não apenas religiosas, mas também intelectuais. Era necessário perder o centro absoluto de referência aceitar o desmoronamento do foco antropocêntrico, instalar-se num satélite, mudar de universo e poder viver num novo universo.

O paradigma antropocêntrico resistiu, contudo, em numerosos setores, O homem continuou o único sujeito do universo na maioria das concepções humanistas. Depois, apesar da descoberta da evolução biológica no século XIX, que o atrelou ao reino animal, a filiação só foi reconhecida sob o ponto de vista anatômico e as ciências humanas constituiram-se no século XIX em ruptura e separação em relação às ciências biológicas. Ainda hoje o paradigma abalado da revolução copernicana continua a resistir como um ouriço e conserva múltiplos bastiões. (Morin: 1998; nota 25: 301)


Por toda parte, os princípios de disjunção e de redução (simplificação) quebram as totalidades orgânicas e são cegos em relação a uma complexidade cada vez menos escamoteável
Por toda parte o sujeito reintroduz-se no objeto, o espirito e a matéria recorrem um ao outro em lugar de se excluírem, cada coisa, cada ser exige a reinserção no seu ambiente.
O paradigma da ordem soberana deixou, por toda parte, de ser operacional, mas a dialógica complexa (de complementaridade, de concorrências, de antagonismo) entre ordem, desordem, organização não se inscreveu nem se enraizou de modo algum em paradigma.(Morin: s.d.:198)

Por toda parte, vemos que não há uma unidade elementar simples, mas o paradigma reducionista continua a funcionar no vazio, como um robô programado há séculos num planeta doravante deserto. (Morin;199:295)

Morin (1998:296) faz comentários sobre contradições verificados no presente quando “a crise social civilizacional foi enunciada, diagnosticada, denunciada, mas o fim da ‘civilização industrial’ ainda não anuncia qualquer aurora...Estamos numa era agônica de gestação ou de morte.”
Mais adiante Morin continua suas considerações:

O paradigma da simplificação que (opera pela redução e pela disjunção), escapa de qualquer compreensão pelo pensamento simplificador que gera. O paradigma da ciência clássica não permite tomar consciência da noção de paradigma . (1998: 297)

A consciência da noção de paradigma significa que já se está separado do paradigma clássico. Ora, como vimos, essa consciência é ainda bastante simplista, confusa, insuficiente em Kuhn, a quem devemos, contudo a introdução da noção no coração da problemática científica. A Esfinge apenas começa a emergir do nevoeiro. (198: 298-299)

1.2.4- Ciência clássica: características epistemológicas

“O paradigma da ciência clássica controlou (e ainda controla em grande parte) não apenas toda a teoria clássica, mas também a lógica a epistemologia e a visão de mundo. Morin(1998:284)
A ciência clássica baseia-se na lógica dedutivo-identitária, geralmente designada por lógica clássica ou formal. O seu cerne são os princípios de identidade, indução e dedução. Através destes três princípios, essa lógica demonstra a coerência que garante a validade formal dos discursos por ela embasados.
Morin chama a atenção para o aspecto de que esses três princípios são solidários e diz que embora Aristóteles “tenha restringido a sua validade a um mesmo tempo e a uma mesma relação, a razão e a ciência clássicas absolutizaram esses princípios.” Morin (1998: 219)

A ciência separa-se da filosofia no decorrer do século XVII, não apenas porque introduz em si a medida e a precisão, a observação e a experimentação, mas também porque se baseia no paradigma disjuntivo, e afasta todo juízo de valor dos seus juízos. (Morin;1998:282)

Morin define os traços característicos da ciência clássica:

- realce da ordem oculta da natureza e exclusão das desordens ou acasos considerados irrelevantes;
- determinação da simplicidade e fixidez da ordem natural, manifesta por um mecanismo universal e determinação dos objetos primeiros na natureza, como unidades elementares simples. A reunião dessas unidades constituiria os diferentes corpos da natureza, todos sujeitos ao mecanismo universal;
- inércia da matéria submetida às ‘leis da natureza’, especialização e geometrização do conhecimento, que ignora e exclui a irreversibilidade do tempo;
- substancialização (ou reificação), do objeto através do seu fechamento ou isolamento em relação ao seu ambiente e a seu observador;
- inclusão ou aceitação do critério de inteligibilidade ou verdade, proferido por Descartes: a clareza e a distinção das idéias;
- redução da verdade científica à verdade matemática, a qual, por sua vez, será reduzida mediante a eliminação dos atributos não mensuráveis, não quantificáveis , - o que representa a exclusão dos aspectos qualitativos das coisas consideradas.
Em todos essas características, vigora o paradigma da exclusão, que opera a simplificação das realidades consideradas, sempre dentro da mais estrita coerência lógica. A desintegração das entidades, que visa o enfoque das unidades elementares, e a visão mecânica que busca os determinismos ordenadores simples, quer se conjuguem, quer se oponham, têm sempre como resultado a expulsão do orgânico e do complexo.
A concepção do mundo da ciência clássica baseia-se em dois princípios : 1 “a coincidência entre a inteligibilidade lógico-matemática e as estruturas da realidade objetiva; 2 o princípio da razão suficiente que dá a tudo que é uma razão de existir.(Morin;1998:283)
Formulado por Leibniz, o princípio da razão suficiente, sustenta: “nunca acontece nada sem uma causa ou pelo menos uma razão determinando, isto é, uma razão que possa servir para explicar a priori porque isso é assim e não de outra maneira.”(Morin; 1998:301, nota 23)
No plano da organização do conhecimento, a racionalidade separou as ciências umas das outras, assim como as disciplinas, recortando-as, de forma abstrata e arbitrária do todo da realidade objetiva.
O positivismo lógico representou o nível mais alto de realização da concepção clássica de ciência. Apoia-se na lógica e na realidade empírica, como pilares de indubitável segurança, absolutamente certo da plena coincidência entre ambas e de que a indução permite a formulação de leis “Decompõe, por princípio, as proposições moleculares (complexas) em proposições atômicas (simples, elementares), determinando do que a verdade das proposições atômicas arraste a da proposição molecular.” Morin (1998: 284)
A ciência clássica rege-se pela “lógica dedutivo-identitária, que pressupõe um objeto e um observador fixos, imóveis, constantes, entre gêneses, metamorfoses e desintegrações. O que faz a sua utilidade segmentária faz igualmente seu limite.” Morin(1998:240)
Baseando-se na lógica aristotélica, que é intemporal, a lógica imobiliza e estratifica os seus objetos, cristaliza-os, reifica-os. Morin (1998:240) cita observações diversas acerca dessa característica imobilizante da lógica dedutivo-identitária: Hegel: “identidade nada mais é do que a determinação do simples imediato, do ser morto a”; Orower “a lógica é impotente para fornecer-nos as normas de um procedimento heurístico indicar-nos como devemos proceder para fazer a menor descoberta e resolver o menor problema”; Novalis: a lógica ocupa-se somente com os cadáveres do pensamento racional”
Os princípios lógicos aristotélicos situam-se num mesmo tempo. Permitem o raciocínio sobre objetos estáveis, a partir dos quais se pode estabelecer uma prova. Absolutizando essa lógica, isto é, conferindo-lhe um poder universal, é que o pensamento simplificador, imobilizou, reificou todos os seus objetos. Morin:(1998:240)

A lógica dedutivo –identitária é feita para o mecânico e para o monótono; as suas conclusões decorrem infalivelmente das suas premissas. O novo pode ser deduzido ou induzido.(Morin:1998:240)

1.3.1- A dominação da natureza e a produção do homem pelo homem

“Todo ser vivo tende a dominar a zona na qual ele se alimenta: no reino vegetal, as plantas controlam seu espaço nutricial, secretando uma substância que inibe o crescimento de outras plantas em sua vizinhança; e, é precisamente evidentemente sobretudo no reino animal que se desenvolve a dominação e precisamente nas espécies que desenvolveram (correlativamente) um aparelho nervoso central, (desenvolve-se) uma rica estratégia de comportamentos hábeis, precisos rápidos inteligentes. Há dominações nos eco-sistemas, mas os eco-sistemas não têm o aparelho nervoso central, eles se organizam através das interretroações dos seres vivos que o constituem.(Morin; s.d.: 144)
Entre esses viventes, há, ao mesmo tempo, parasitismos em cadeia, interdependências, dominações recíprocas, tudo através de cooperações, lutas, competições, submissões.
Assim a relação comando-comunicação

comandocomunicação
_________
entre eles é sempre complexa, apresentando características de complementaridade, de concorrência de antagonismos. São incertas, rotativas, aleatórias.


1.3.2. A dominação da motricidade física


A história da humanidade inaugura um novo tipo de dominação na natureza e sobre ela.
Tudo começa por uma subjugação, uma domesticação e uma primeira dominação: o homem aprende a manter, isto é a regular o fogo, depois de fazê-lo surgir. O fogo serve para proteger, iluminar, cozer, grelhar, depois forjar: ele está dominado. Mas a grande dominação só se produzirá mais tarde, quando o fogo for aprisionado, explorado, como motor da era industrial.
Entre a subjugação inicial do fogo e sua escravização generalizada ocidental do século XIX há a produção e subjugação dos moinhos de água e de vento. Finalidades antropo-sociais.... Depois o motor a fogo, como foi dito. Depois a máquina antropo-social criou motores a partir de energias cada vez mais turbulentas, subjugou a explosão, libera, em um flamejar de começo e fim do mundo a dominar a energia do átomo, depois começa a dominá-la no motor nuclear. Assim ao termo de uma gênese ao contrário, o homem quebra o núcleo do átomo, isto é, da primeira realidade física organizada, do primeiro ser físico e ressuscita a fusão termonuclear que faz nascer e mantém os sóis. Assim a história da produção do homem pelo homem é inseparável de uma recriação e redescoberta das potencialidades genésicas da física para e por sua dominação.




1.3.3.-O assujeitamento do vegetal e o assujeitamento do animal

A transformação dos fluxos e turbulências naturais em motricidade subjugada é apenas um aspecto da dominação da natureza. Além da parasitagem (dominação parcial e localizada) e da simbiose (dominação mútua, que se torna cooperação e co-organização), começa uma dominação multidimensional do universo vivo, que vai da exploração pura e simples das energias corporais até a escravização. O assujeitamento da vida efetua-se principalmente pelo assujeitamento, não só dos processos de reprodução, mas dos aparelhos de reprodução (manipulação e seleção de grãos, seleções, contrações na criação de animais). Em outras palavra, o fundamento de toda vida, a reprodução, é ao mesmo tempo controlada, transformada, manipulada pelo exterior, totalmente submetido aos fins humanos em todas as espécies domésticas.
O assujeitamento é a submissão do ser animal por controle/comando do seu autos, isto é, da sua autonomia cerebral. A partir daí, o aparelho neuro-cerbral humano submete outros aparelhos neuro-cerebrais que conservam sua competência e a sua autonomia organizacional, mas suas atividades tornam-se, desde então, submetidas às finalidades da sua subjugação. Aqui o termo alienação, assume um sentido concreto: o autos do assujeitado encontra-se alienado no autos do senhor.

Essa relação senhor/escravo é muito mais fundamental, complexa e dramática que a relação senhor/escravo de Hegel. O autos continua dotado de subjetividade, mas esta torna-se satélite de um outro sujeito assujeitador;a inteligência e as aptidões do assujeitado devem encontrar pleno emprego, mas no sentido das finalidades do senhor. A obediência pode ser imposta pela coação (escravidão), mas ela pode também assumir o valor de lei, programa, ordem natural no escravizado, assim totalmente alienado ao serviço da lei, do programa, da ordem do senhor. (Morin; s/d:245)

Ao mesmo tempo a fórmula da subjugação está preparada. Ela será uma justaposição e/ou combinação de assujeitamento e de escravidão, de alienação e de exploração. A escravidão é ela própria, uma combinação de assujeitamento absoluto (o escravo tornado propriedade do senhor) e de uma subjugação energética (a exploração sob coação da força de trabalho)
De resto, a apropriação massiça das plantas (a agricultura) e dos animais, a subjugação de massas enormes da humanidade, e o surgimento da mega-máquina social como seu aparelho central, o Estado são concomitantes e correlativos.

Desde o começo a dominação da natureza retroage de modo complexo, sobre o devenir da humanidade. A domesticação do fogo domesticou o homem criando-lhe um lar, ela o barbarizou, convidando-o a destruir com o fogo. A subjugação das turbulências e explosões permitiu civilizar enormes forças motoras selvagens ela aumentou a turbulência explosiva da história humana e criou as condições de uma auto-destruição generalizada. A cultura das plantas cultivou o homem, criando vida rural e urbana (,) ela lhe fez perder a rica cultura arcaica dos caçadores-coletores nômades. A subjugação do mundo animal criou os modelos de subjugação do homem pelo homem.
E hoje a dominação dos artefatos cibernéticos preludia talvez um monotipo de subjugação informacional do homem pelo homem. (Morin; s/d, 246)

1.3.4- O Estado e a mega máquina social: o jogo dos assujeitamentos e emancipações

A mega-máquina antropo-social formou e desenvolve-se em e pelo assujeitamento generalizado dos seres humanos. O assujeitamento dos homens surgiu nesse momento crucial. A entrada da humanidade na história é a entrada do Estado dominador no coração das sociedades, ao mesmo tempo que a entrada da turbulência da desordem no coração da sociedade. A guerra e a conquista produzem a dominação e o Império: os inimigos vencidos fornecem os enormes contingentes da antiga escravização: as etnias subjugadas tornam-se os povos dominados.
A formidável subjugação dos viventes e dos humanos é inseparável da formação de uma aparelho de Estado, que computa , ordena, decide, que domina a sociedade e a organiza como máquina.
O Estado é o aparelho dos aparelhos... O aparecimento do Estado constitui uma enorme metamorfose em relação a todas as outras sociedades animais, hominídeos e humanos arcaicos. Existem já mega-máquinas sociais entre as formigas abelhas, mas são sociedades sem Estado, nem governo: sua praxis organizacional efetua-se a partir das interações entre os aparelhos nervosos dos indivíduos e é esse conjunto neuro-ativo que constitui como que um gigantesco cérebro dotado de mobilidade e de mandíbulas. Na espécie humana a mega máquina social só pôde se constituir com o Estado.

O aparelho de Estado emancipa e subjuga ao mesmo tempo. Não somente a e, emancipação do homem, mas também a subjugação do homem que se efetua em e pela dominação da natureza. É a dominação de uma sociedade que permite a dominação de seu meio ambiente (as sociedades vizinhas, o meio natural), mas que desenvolve em e por essa barbárie predatória os focos da civilização na elite dos dominadores. (Morin; s.d:248)

1.3 4- Dependência ecológica-relação ecológica

Os seres vivos dispõem de uma extraordinária autonomia de organização e de comportamento que lhes permite adaptar-se ao ambiente e até adaptar o ambiente a si mesmo e dominá-lo. Mas eles mantém-se sempre em total dependência ecológica, uma vez que sua revitalização ininterruptamente necessária provém desse ambiente

Os seres eco-dependentes têm uma dupla identidade: uma identidade própria que os distingue, uma identidade de pertencimento ecológico, que os liga ao seu ambiente. O turbilhão faz parte do movimento dos ventos embora mantendo sua identidade própria; faz parte de rio, do qual ele é apenas um momento e, entretanto, ele tem a sua individualidade, em relação à qual o rio se torna um meio ou ambiente; mas tornado ambiente. Sempre, por algum aspecto, um sistema aberto de entrada faz parte do seu meio, o qual faz parte do referido sistema , uma vez que ele penetra, o atravessa, o co-produz. (Morin; s.d. 204)

Temos a tendência a considerar as fronteiras essencialmente como linhas de exclusão, mas aqui a palavra fronteira revela a unidade da dupla identidade, que é ao mesmo tempo, distinção e pertencimento. A fronteira é ao mesmo tempo, abertura e fechamento. É na fronteira que se realiza a distinção e ligação com o ambiente. Toda fronteira, é inclusive a membrana das nações, é ao mesmo tempo que barreira, o lugar de comunicação e da troca. Ele é o lugar da asssociação, da separação e da articulação. Ela é o filtro retém e deixa passar. Ela é aquilo pelo que se estabelecem as correntes osmóticas e o impede a homogeinização.
O ambiente não é apenas co-presente; ele é também co-organizador se considerarmos as correntezas, as cachoeiras: é o fluxo do rio que organiza o fluxo que tornou turbilhão ou cachoeira constituído pelo encontro entre o fluxo e a pedra que se organiza em torno de si mesmo? Tudo isso ao mesmo tempo: o fluxo, o barco, o processo do turbilhão são co-produtores e co-organizadores de uma generatividade que se fechando sobre si mesma, se torna cachoeira. (Morin; s/d: 204)

O ambiente, longe de reduzir seu caráter co-organizador, o aumenta no ser vivo. O ambiente, feito ecossistema, isto é uma máquina espontânea nascida das interações entre os seres vivos de um mesmo nicho, é muito mais que uma reserva de alimento, mais ainda uma fonte de neguentropia onde o ser (haure) organização, complexidade, é uma das dimensões da vida. tão fundamental quanto a individulidade, a sociedade, o ciclo das reproduções.
Impõe-se, portanto, a idéia-chave: o ambiente é constitutivo em permanente ou permanência de todos os seres que se alimentam nele; ele coopera permanentemente com a sua organização. Esses seres e essas organizações são permatentemente eco-dependentes.
Mas por um paradoxo que é a característica da relação ecológica, é nessa dependência que se tece e se constitui a autonomia dos seres.
Tais seres não podem construir e manter sua existência, sua autonomia , sua individualidade, sua originalidade se não na relação ecológica, isto é, em e pela dependência relativa a seu ambiente, de onde a idéia alfa de todo pensamento ecologizado: a independência de um ser vivo requer sua dependência de um ser vivo requer sua dependência em relação ao seu ambiente.

Bibliografia
Morin, E. Método 2 A vida da vida. s.l. Publicações Europa América, s.d.
Morin, E. Método 3. O conhecimento do conhecimento s.l. Europa América, s.d.
Morin, E. Método 4. As idéias habitat, vida costumes organização. Porto Alegre, Sulina, 1998 Morin, E. Science avec conscience, Paris, Fayard, 1982, p.33.

Um comentário:

Liete Alves disse...

Olá, indiquei este blog para receber o Prêmio Dardos.Os prêmios são uma forma de manter laços de solidariedade no ambiente da blogosfera. Espero que aceite.A indicação está neste endereço: http://obairroondemoro.blogspot.com/
Parabéns pelo blog e forte abraço, Liete.